Despretenciosa e sonolentamente navegando na minha jangada de 100 mbps encontrei esse texto no blog Querido Leitor da Rosana Hermann (no R7.com) que, devo admitir: nem sabia que existia mas o texto me surpreendeu e achei muito pertinente a este modesto blog.
O título original do post é: Humor, mau-gosto, Rafinha Bastos e outros quetais.
Rafinha Bastos está na boca do povo. E na boca do sapo. Hoje, a jornalista Mônica Bérgamo publicou que o humorista não estará na bancada do CQC neste 2a. feira e nem nas próximas. O BlueBus reproduziu:

Li a nota do BlueBus, visitei os links mencionados, li matérias em sites e revistas. E muitas opiniões sobre o caso.
HUMOR
O Brasil adora humor, adora piadas de todos os tipos. Piadas de sogra, de papagaio, de português, do burro, das minorias. Esse humor é quase todo embasado no binômio crueldade-preconceito. Em graus diferentes, o humor é quase sempre cruel com alguém. Rimos de algo ou alguém. Para isso existia o bobo da corte. Para isso existe o palhaço. O palhaço faz palhaçadas, é tonto, tolo, daí rimos dele. Rimos quando ele cai, quando ele se dá mal, rimos da desgraça alheia. (Em alemão isso tem nome: schadenfreude.)
Quando o programa de humor é ficcional, tipo Zorra Total, A Praça É Nossa, etc., rimos dos estereótipos. A loira burra, a gostosa sexy com o marido feio e rico, o marido corno, o caipira esperto. o judeu avarento. São sempre clichês,usados também pela propaganda. Quando o programa é mais realista, como Pânico e CQC, rimos de artistas, de políticos, de famosos que são colocados em momentos de saia-justa. E no humor de stand-up rimos do humorista que se auto-deprecia e rimos de nós mesmo. O humor é transitito direto. Além disso tem todo o humor de preconceito, por exemplo, contra corinthianos, sãopaulinos, gordos, etc. Preconceito e crueldade, bases do humor que nós mesmos consagramos, há séculos. Não estou dizendo se é certo ou errado, mas que é assim. O humor, em muitos casos, é uma espécie de ‘alívio social’ contra o medo popular de ser ‘anormal’ ou ‘diferente’. Pense nos circos, com a mulher barbada, o homem gigante, os anões. Não é uma forma de reafirmar a nossa suposta ‘normalidade’ através do que é diferente? Fazemos isso até hoje.
MAU-GOSTO
‘Gosto não se discute’ é um adágio que só vale quando não há uma instância de poder envolvida. Porque se o dono, o patrão, o patrocinador, o marido, o pai, alguém com poder estiver envolvido, a coisa muda. Aí o gosto é discutido e coibido, se necessário. Sempre foi assim em todo lugar. Se não aconteceu em algum lugar é porque não mexeram com a mãe, a filha, a religião, o hobby, a ideologia de alguém. Porque se mexer, toma. Todo mundo tem algum assunto que considera de mau-gosto e, às vezes, a opinião é unânime. Some-se a isso a ideia de “ah, se fosse comigo”. Talvez você achasse de mau-gosto. Talvez. De qualquer forma, mau-gosto não é crime. Não é difamação.
O problema é que nós temos um comportamento individual e outro social. Individualmente a gente pode contar e rir de piadas com gagos, loucos, etc, mas socialmente as mesmas pessoas quem riem da piada no churrasco com os amigos dirão que é de mau-gosto e tentarão mostrar seu lado politicamente correto quando estão em público. Isso tem um nome que pode ofeder, hipocrisia, mas é o que é, as máscaras sociais que usamos para parecer o que não somos. Ou para esconder o que somos.
Todo mundo QUER parecer socialmente correto. Publicamente ninguém diz “sim, eu sou preconceituoso”. Ninguém diz que tem preconceito. E, no entanto, o preconceito existe. É por isso que pesquisa sobre TV não dá certo com o público. Na entrevista todo mundo diz que a TV deveria ter “mais programas culturais”. A pessoa diz isso só pra parecer interessada em cultura, mas na hora que ela está sozinha em casa com o controle remoto ela vai ver baixaria. E, veja, baixaria é um conceito MUITO relativo.
RAFINHA BASTOS
Rafinha é antigo na Internet. Todo mundo que é velho na rede ouviu falar da página do Rafinha. O humor dele sempre foi esse, o mesmo, praticamente igual desde sempre. Foi esse humor que o consagrou. Ele foi chamado para apresentar um programa de TV, dois programas de TV, tem milhões de followeres no Twitter, abriu uma casa de shows. Seu DVD / show é um dos mais vistos e ele está tentando uma carreira internacional. E aí eu te pergunto (Marcelo Resende): foi ou não foi o tipo de humor dele que o fez famoso? E agora, provavelmente, as mesmas pessoas que o aplaudiam vão ficar com medo, vergonha, de apoiá-lo quando grandes ídolos o renegam. O público, enquanto massa, é assim mesmo, maria vai com a outras, volúvel, muda conforme lhe interessa. O povo vai para onde o conforto está, ninguém vai sair às ruas para defender um humorista. As pessoas não são regidas pela lógica e pelo bom senso, mas pelo medo e pelos interesses momentâneos.
Não acho que seja o fim da carreira dele, nem o fim de seu emprego na TV. O mesmo povo que faz drama com tudo, também esquece de tudo.
OUTROS QUETAIS
Sempre converso com meu marido sobre o ser humano. A maioria das pessoas não tem consciência das coisas. Nem de si, nem do mundo. Estão adormecidos e não querem ser acordadas. Talvez acordar signifique sofrer mais e, por isso, preferem um mundo de ilusões. Dramatizam tudo, para ter um pouco de intensidade na vida. Vivem pela vida alheia, especialmente de famosos, para esquecer um pouco a própria vida. Julgam sem embasamento, erram sem admitir, não pedem desculpas em público. O ser humano é vaidoso e teimoso e não vê muita vantagem em ser razoável. E isso, meu marido diz sempre, não tem nada a ver com intelectualidade, formação, classe social, nada.
As pessoas são frágeis. E, muitas vezes, por causa dessa fragilidade, tornam-se agressivas.
Quando surge um caso assim, em que uma pessoa é exposta ao julgamento público, temos primeiro que pensar sobre os interesses que estão por trás e não apenas no julgamento da pessoa.
Porque a mesma “mídia” que o consagrou até outro dia, tratando o fato efêmero de Rafinha Bastos ser o `mais influente do Twitter` em uma medição, por um determinado instituto, num dado intervalo de tempo como se fosse um título ETERNO e PERMANENTE, agora o esmaga como se ele fosse, pro outro lado, ‘a pior pessoa do mundo’.
Rafinha Bastos, pessoalmente, é uma moça. Um doce de pessoa. Gentil, engraçado. Comigo sempre foi. E, veja bem, eu já fiquei muito chateada com ele porque há anos, quando minha filha era criança e ela apareceu num vídeo com meu marido, ele falou mal daquela ‘criança’ que aparecia. Fiquei chateada, mas entendi, ele é humorista e faz isso, gera risos a partir da pior interpretação de tudo e de todos. Era a minha filha, mas pro humorista, é uma criança genérica. Como mãe de juiz.
Pra encerrar, quero avisar que este não é um posto de julgamento, de condenação ou absolvição de ninguém, mas de reflexão para as poucas pessoas que vivem acordadas.
O que somos afinal?
Um povo liberal, permissivo, que ri de tudo e de todos sem medo, porque humor é humor e todo mundo acha graça nas características alheias, somos um povo conservador que não admite piadas com defeitos físicos, características étnicas, sociais e religiosas, ou somos um povo hipócrita que se coloca de uma forma e age de outra?
Fica aqui a pergunta.
E, se eu fosse a Wanessa, o Buaiz, a família, eu também teria ficado chateada com a colocação sobre o bebê. Como fiquei quando ele falou da minha filha. Mas, ficar chateado é uma coisa que dá e passa. Hipocrisia é algo que vem e fica. Escondido. E corrói todo o bom senso do mundo.
O correto, de verdade, é que as leis, o mundo dê direitos iguais a todos. Um anão que paga imposto tem todos os direitos que um gigante que paga imposto, assim como uma pessoa de estatura mediana. Perante a lei todos são iguais. E todos devem ter direitos. A pessoa obesa tem que ter o direito de voar de avião e caber na poltrona. Enfim, todos devem ter seus direitos garantidos. Mas o fato de você aceitar o outro com suas diferenças, permitindo que os outros NOS aceitem com nossas diferenças, não faz com que essas características de tornem INVISÍVEIS. Todo mundo ama Stevie Wonder, todo mundo sabe que ele é cego. E o fato de eu dizer ‘deficiente visual’ em vez de cego não me torna menos fã nem é desrespeito. O próprio Geraldo Magela, que é cego e muito bem humorado, faz piadas com sua condição. Sem querer fazer piada, mas não dá pra fingir que a gente não vê o que é visível ou não percebe que isso difere da maioria. O que não podemos é tratar mal a pessoa POR ISSO, nem privá-la de seus direitos POR ISSO, nem podemos agredir ou ofender as pessoas por isso.
Ufa, ficou imenso o post. Me perdoe.
E bom dia, antes que o politicamente correto acabe com tudo.
Link original do post:
http://noticias.r7.com/blogs/querido-leitor/2011/10/03/humor-mau-gosto-rafinha-bastos-e-outros-quetais/
Tags: bastos, camargo, cqc, hipocrisia, humor, rafinha, vanessa
4 04UTC outubro 04UTC 2011 às 2:24 |
Muito bom!
Assino embaixo.
4 04UTC outubro 04UTC 2011 às 9:21 |
O problema não está no “humor”, mas no comportamento da nossa grande mídia. Boris Casoy e Luis Carlos Prates são exemplos claros. Não é caso pra rir.